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Posts Tagged ‘luis queiros’


Texto original disponível no blog ‘Transição’, do nosso vizinho Luís Queirós.

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«Em tempo de carnaval, a oportunidade para revisitar um tema fundamental do nosso tempo.
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Num ensaio intitulado “ Do progresso, sua lei e suas causas” o filósofo inglês Herbert Spencer, que viveu no século XIX, escreveu: “Na Sociedade, no Governo, na Indústria, no Comércio, na Linguagem, na Literatura, na Ciência e na Arte, o progresso esteve sempre associado a um processo de evolução, através de sucessivas transformações, do mais simples para o mais complexo. Essencialmente, o progresso tem consistido na transição do homogéneo para o heterogéneo.”
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Na verdade as sociedades primitivas eram muito simples na sua organização, havendo entre os seus membros muito pouca diferenciação de funções. Quase todos eles se ocupavam da caça ou da recolha dos alimentos que a natureza oferecia. E, nessas sociedades, a escolha das chefias baseava-se no processo natural de seguir o mais forte ou o mais apto.
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A domesticação de animais e plantas permitiu criar excedentes alimentares. Esse facto conduziu à sedentarização e fez aparecer na sociedade outras funções, as quais, numa primeira fase, eram de carácter religioso, militar ou administrativo. Mais tarde o desenvolvimento da indústria e do comércio trouxe os artesãos, os mercadores, os médicos, os artistas e os escritores. Surgiram depois os banqueiros, os agiotas e os prestamistas.
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E as sociedades foram-se tornando, pouco a pouco, mais estruturadas e diferenciadas. Em particular, a nossa civilização global é caracterizada por uma extrema complexidade, traduzida na especialização, na diferenciação de funções, e na existência de acentuadas hierarquias entre os seus membros. O todo é suportado por uma panóplia de ferramentas, de equipamentos e de infra-estruturas de apoio, interligadas pela rede informática, pela rede eléctrica e pela rede de comunicações. E onde existe uma grande interdependência entre as vários partes do sistema organizativo.
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Esta sofisticação traz consigo algumas desvantagens como, por exemplo, o acréscimo do risco de ruptura de um ou vários elementos do sistema, o qual fica, assim, mais vulnerável. E a complexidade tem ela própria, inerente, um custo de manutenção, que está associado a um “input” energético sempre crescente, exigido para a alimentar.
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A questão da complexidade crescente na evolução (num sentido não necessariamente darwinista) tem sido tratada por vários autores. Um deles, Joseph Tainter, no seu livro “O colapso das sociedades complexas”, aborda a importante relação da complexidade com o colapso. Sugere mesmo uma definição de colapso, que para ele é “uma rápida redução da complexidade”.
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A tese de Tainter pode resumir-se à seguinte ideia: quando a introdução dum acréscimo de complexidade num sistema exigir um custo superior ao benefício que ela produz, o sistema tende a colapsar. É o próprio autor que nos explica o conceito: “Em civilizações antigas que tive oportunidade de estudar, como foi o caso do Império Romano, verifiquei que o maior problema que elas enfrentaram foi quando tiveram de suportar custos muito elevados, apenas para manter o “status-quo”. Tinham de investir enormes somas para resolver problemas, sem retorno positivo. Muitas vezes apenas para manter o que já existia. Isto reduziu a vantagem de ser uma sociedade complexa”.
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Na extrema sofisticação que caracteriza o nosso mundo “civilizado”, convém não ignorar estes princípios. No século XXI, o mundo vai ter de ocupar-se a manter e reparar as grandes estruturas criadas no século passado. Isto com um custo que, em certos casos, pode ser superior ao custo de as construir. E não devemos esquecer que as sociedades complexas são mais propensas ao aparecimento de acontecimentos insólitos e impactantes, como foi o caso do 11 de Setembro (aquilo que Nassim Taleb designou como “cisnes negros”).
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A este propósito ocorre perguntar: por que não valorizar mais as coisas simples? Já lá vai o tempo em que as castanhas assadas se embrulhavam em papel de jornal, em que nas nossas aldeias se criavam animais, em que o queijo e os enchidos se curavam ao calor das lareiras. Em nome sabe-se lá de quê, criaram-se normas para complicar as coisas, inclusive um organismo (a ASAE) para as fiscalizar e fazer aplicar.
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A acreditar em Tainter, o futuro pode ser bem mais promissor para as sociedades simples. Afinal foram os Bárbaros que venceram os Romanos.»

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pelo nosso amigo Luis Queirós, um telheirense…

Vivem-se tempos de angústia e de incerteza no nosso país, mas também um pouco por toda a parte. É a crise económica, o aquecimento global, os desastres ambientais, a crise energética, a globalização, as assimetrias regionais, os conflitos latentes, o terrorismo ou a, sempre presente, ameaça nuclear. São contingências universais mas que na aldeia global afectam potencialmente todas as pessoas e todos os lugares, mesmo os mais isolados e remotos. E, o pior de tudo, é esta espiral de pobreza que paira sobre nós como uma espada afiada e que ameaça, por longo tempo, o nosso futuro.

Nos dias de hoje, os jovens vivem na incerteza do emprego, e os velhos na solidão dos lares. E a população activa está no meio, e sente-se perdida: tem de cuidar dos filhos, que estão à espera do emprego, e dos pais, que estão à espera da morte. Viciou-se no consumismo, vive na dependência do automóvel, da televisão e do multimédia. Deslumbra-se com os novos Ipads, mas não percebe ou percebe mal o que está a acontecer à sua volta. Ninguém lhe aponta um rumo, sente-se desorientada.

Muitos de nós, vamos perceber, dentro de pouco tempo, que, afinal, estávamos a viver um sonho. Disseram-nos que esta crise económica é um mero acidente de percurso, e querem fazer-nos acreditar que ela vai passar, e que tudo voltará a ser como dantes. Mas começa a bulir em alguns de nós uma angustiante sensação de que o modo de vida da nossa geração, assente na globalização e caracterizado pela civilização da abundância e do desperdício, estará prestes a chegar ao fim. Será que estamos preparados para isso?

O que está verdadeiramente em causa é o modelo – predador de recursos e poluidor – em que assenta a nossa economia, e que já não funciona. Falam-nos de crescimento como a solução de todos os problemas a começar pelo desemprego, e nós sentimos que estamos a tocar o céu, a atingir um limite para lá do qual já não se pode crescer: falta o espaço vital, faltam os recursos, sobra a população e sobra a poluição.

O modo de viver tradicional está destruído, e não se advinha outro que o venha substituir. Viver à custa da segurança social, do fundo de desemprego, dos subsídios do Orçamento do Estado ou dos fundos da CE não é solução sustentável. E as maiores ameaças, no futuro, pairam sobre os grandes aglomerados urbanos e os seus tristonhos subúrbios e dormitórios que são “sítio nenhum”, de onde se irá fugir quando os alimentos escassearem e os depósitos dos automóveis ficarem irremediavelmente vazios.

E parece que nem sequer existe o outro lado da crise! Os acontecimentos das últimas décadas roubaram-nos a esperança no chamado modelo socialista, que alimentou os sonhos da juventude da minha geração. Acabou a crença nos “amanhãs que cantam”, e está definitivamente desacreditado o modelo de “a cada um segundo as suas necessidades, de cada um segundo as suas capacidades”.

Hoje só nos resta o estreito caminho da Transição, que é uma reaproximação à natureza, e uma nova forma de olhar o mundo, menos consumista e mais solidária.

leis o original em http://poscarbono.blogspot.com/2011/04/tempo-de-angustia-e-de-incerteza-tempo.html

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Todas as Segundas-feiras o nosso vizinho Luís Queirós publica no seu blog um artigo de opinião.

http://poscarbono.blogspot.com/

hoje podemos apreciar o seu balanço do ano 2010, no que toca a estas coisas da transição.

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Por Luis Queirós

Segunda-feira, 18 de Outubro de 2010

A minha Transição

Quando, há meia dúzia de anos, me comecei a interessar pela questão do “pico do petróleo” mal imaginava quanto o assunto me iria apaixonar, e quanto iria modificar a minha forma de olhar a nossa civilização, de interpretar o seu passado e de perspectivar o seu futuro. E, à medida que fui aprofundando o tema, passei a dar-me conta das motivações das guerras, a entender melhor as estratégias dos governantes, a compreender com mais clareza as razões da crise, e a duvidar da eficácia das soluções que nos apresentam para sairmos dela.

Acima de tudo, convenci-me da impossibilidade do eterno crescimento exponencial que os economistas nos receitam, aprendi a conhecer e a respeitar os limites do planeta e dos seus recursos. E, por causa disso, até mudei a minha forma de estar no mundo: uso mais os transportes públicos, procuro racionalizar os consumos, respeito mais o ambiente, reciclo e reutilizo sempre que posso. Este interesse ajudou-me a reencontrar velhos amigos, irmanados numa visão comum. Tem-me ajudado a transmitir aos meus filhos um sentido para a vida e dar-lhes uma causa para lutar, e está a permitir-me envelhecer a olhar em frente e a aprender, em vez de mergulhar no revivalismo estéril das memórias do passado.

Aproximou-me das minhas raízes… levou-me à criação da Associação Rio Vivo, em S. Pedro do Rio Seco, onde procuro dinamizar pessoas, apoiar os mais idosos, e criar condições para impedir a morte desta aldeia. Nas pequenas localidades rurais, as antigas formas de viver foram irreversivelmente destruídas, e não mais voltarão a ser recuperadas.

Conheci muita gente que partilha a mesma visão, gente de todas as idades, onde se mistura a experiências dos anos com o entusiasmo da juventude. Gente que acredita que o mundo está no caminho errado, e que existe um caminho alternativo. Gente que, nos blogs, nas redes sociais, partilha experiências, desenvolve iniciativas, divulga informações.

O meu site de referência é o “theoildrum”. A partir daí, tenho partido à descoberta dos fundamentos das questões ligadas à energia, à sustentabilidade, ao ambiente. A internet permite-nos isto : partilhar ideias, discutir argumentos, conhecer pessoas, preparar análises, escrever artigos, etc… Aquilo que há uma dúzia de anos não teria sido possível, é hoje uma realidade.

Na semana passada estiveram reunidos em Washington, no congresso anual da ASPO-USA, muitos especialistas em questões de energia. São pessoas atentas, desinteressadas, altamente qualificadas; pessoas que nunca vi, mas com as quais já sinto alguma familiaridade. Leio e vejo as comunicações apresentadas que convergem na conclusão de que estamos a viver os últimos tempos da Idade de Ouro, como lhe chamou o almirante Rickover. Estas pessoas investigam, estudam, divulgam, pelo prazer de ensinar e partilhar. É um mundo que contrasta com o mundo interesseiro dos negócios, dos pareceres, dos consultores, dos lobbies.

Nestes dias desesperançados, com os noticiários ocupados com a discussão de um depressivo orçamento de Estado, eu questiono-me sobre as opções dos nossos economistas, que nos pedem sacrifícios, mas que prometem a retoma, e, a seguir, mais do mesmo. E eu, ao perceber que, nesta maldita crise, não existe o outro lado, adoptei a crença de que o caminho para mundo do futuro tem de ser diferente do beco sem saída que nos mostram.

Fiz-me adepto da transição.

 

Original deste artigo neste Sitio.

 

 

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No último sábado, das 10h00 às 13h00, teve lugar, na sede da ART, a 1ª reunião alargada da Iniciativa de Transição em Telheiras!
Estiveram presentes 25 pessoas, dos 5 aos 70 anos, mulheres e homens!

Resumo da reunião:

  • Por volta das 10h30 começámos por tentar ver quanto estamos ou não informados sobre temas como a permacultura, o pico do petróleo ou o movimento de transição.
  • Depois falámos um bocado desses mesmos temas: o que é, o que não é, o que normalmente não vemos e não pensamos, alguns mitos e algumas motivações, o que idealizamos, o que queremos para o nosso futuro, o que podemos fazer, o que queremos fazer!
  • A partir daqui começou um aceso debate, especialmente sobre o tipo de acções a organizar nesta fase inicial e sobre as hortas em Telheiras. Também falámos da mobilidade (importância da bicicleta), de uma campanha que reduza a utilização de sacos de plástico no comércio local e da possibilidade de um workshop para aprender a fazer brinquedos (como boa campanha pré-Natal!).
  • Como as horas passavam e a fome apertava, todos concordámos que seria melhor marcar uma reunião para debater estas questões mais específicas (hortas, mobilidade, workshops, campanhas), portanto: próxima reunião, 3ª feira (dia 9) às 21h00 na sede da ART (aqui). Há embriões de grupos de trabalho de diferentes áreas, o que é óptimo! Todos e todas que estiverem interessados nos temas já escritos e/ou que quiserem apresentar outros temas, apareçam por lá, certamente serão bem recebidos pelos que lá estarão!
  • Por último, foi a maravilhosa altura de visitar o espaço em que o nosso vizinho Luís Queirós tem plantado e ver na prática o que é isto de semear na cidade!! Vimos os alhos e a figueira, a oliveira e as alfaces, até mangas e maracujás! Ideal para nos seduzir a pôr as mãos na terra! Há já um grupo de vizinhos que está a pensar juntar-se ao cultivo!

Estamos a pensar reunir-nos todas as Terças-feiras às 21h00 na sede e Sábados (às 10h00 é muito cedo? talvez um almoço partilhado, ou depois do almoço?). Avançamos também uma lista de eventos para marcar na agenda, em Novembro:

09 Nov, 21h00 – reunião aberta do grupo de transição de Telheiras, sede da ART
12 Nov, 11h00 – palestra “Descrescimento sustentável”, Auditório da biblioteca FCT-UNL, Monte da Caparica (http://pt.indymedia.org/conteudo/agenda/2606)
13/14 Nov – congresso de associativismo e democracia participativa, ISCTE (http://movimentodoassociativismo.blogspot.com/)
16 Nov, 21h00 – filme/animação (Story of stuff, a História das Coisas) + conversa, sede da ART
24 Nov, 21h00 – filme (Power of Community, o Poder da Comunidade) + conversa, biblioteca Orlando Ribeiro (Telheiras)
27 Nov, todo o dia!
manhã – palestra sobre permacultura + 2 workshops, com Maurício Umman e alunos da Fac. Ciências UL: i) construção de espiral de ervas aromáticas ii) produção de “bombas de sementes” (talvez almoço partilhado?!), sede da ART

tarde – a experiência de Pombal no movimento de transição, com João Leitão, biblioteca Orlando Ribeiro (Telheiras)

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Apresentamos mais um texto dos vários que Luis Queirós tem vindo a escrever no seu blog, desta vez é um texto publicado em de Agosto passado, onde fala sobre o Pico do Petroleo.

Aqui fica o texto na integra:

SEGUNDA-FEIRA, 2 DE AGOSTO DE 2010

O PICO DO PETRÓLEO

Nos anos recentes, sobretudo a partir de 1998, ano da publicação no Scientific American do artigo The Coming Oil Crisis, de Colin Campbell e Jean Laherrère, a questão energética e o provável esgotamento dos combustíveis fósseis num curto horizonte temporal tem vindo a ganhar grande relevância nos fóruns de discussão entre especialistas. Mormente na Internet, a discussão tem-se centrado sobretudo nos EUA, no Canadá, na Austrália e na UE. E embora timidamente, o assunto começa a ser tratado nos mass-media, sobretudo nos mais especializados.

Esta é, no entender de muitos especialistas, a questão central dos nossos dias. Os combustíveis fósseis são o principal recurso da nossa civilização. Moldaram o nosso modo de vida, alimentam o nosso modelo de crescimento económico, e permitiram a explosão populacional do último século. Porém, tal como aconteceu na Ilha da Páscoa, a Civilização, tal como a conhecemos, poderá não sobreviver ao esgotamento do seu principal recurso.

Quando falamos de combustíveis fósseis, é de petróleo, de gás natural e de carvão que estamos a falar. São compostos (ou misturas de compostos) com fórmulas químicas diferentes. Mas têm em comum o facto de armazenarem energia nas ligações do átomo de carbono. Essa energia liberta-se sob a forma de calor, quando o carbono desses compostos se combina com o oxigénio (O2) para formar o anidrido carbónico (CO2). Na natureza, este chamado ciclo do carbono é um ciclo longo, que se pode traduzir no seguinte esquema:

Energia Solar + CO2 -> Carbono +O2 -> CO2 +Energia Térmica

Num extremo da cadeia está a energia solar, e no outro extremo está a energia térmica. No fundo, é como se o anidrido carbónico absorvesse a energia solar (uma árvore a crescer é disso perfeito exemplo), a qual é posteriormente libertada, na combustão do carbono. O carbono funciona, neste caso, como um transportador, ou carrier de energia.

A grande diferença entre os dois processos do ciclo (a acumulação e a libertação da energia) está no tempo em que decorrem: a reacção simbolizada na primeira seta – a formação dos combustíveis fósseis – demorou milhões de anos a ocorrer; ao passo que a reacção da segunda seta – a utilização desses combustíveis – decorre no espaço de algumas décadas. Tudo se passa como se um tesouro tivesse sido acumulado ao longo de muitos anos, e fosse dissipado num ápice.

Não existem quaisquer dúvidas de que os combustíveis fósseis vão escassear no futuro. Não irão desaparecer do pé para a mão. Mas vão ser cada vez mais raros, o custo de os extrair aumentará, e aquilo que era barato vai passar a ser caro. Isso vai implicar um momento a partir do qual se verificará uma redução na produção desses combustíveis. Nesse momento atingiremos um máximo de produção, e é esse máximo que se designa por “pico” de produção.

Entre todos os combustíveis fósseis, o petróleo é aquele que mais nos preocupa. Por ser mais conveniente de usar e armazenar, por ser mais fácil de transportar, e por ser o mais adequado à indústria dos transportes. E o “pico do petróleo” está à vista. Poderá estar a ocorrer neste momento, mas só será identificado depois de ter acontecido, como se estivéssemos a olhar pelo retrovisor do tempo. Uma tal conclusão ganha força. E a própria Agência Internacional de Energia não a enjeita, ao rever a cada ano, sempre em baixa, as previsões para os anos próximos. Embora não a apresente de modo muito explícito, para evitar alarmismos.

A alternativa das energias renováveis é uma via possível, mas não é a solução. Em primeiro lugar porque isso obriga a investimentos massivos, que vão usar o petróleo. E depois porque o seu retorno energético (relação entre o input e o output de energia) será muito inferior ao que é proporcionado pelo petróleo convencional.

O que temos como certo é que a ocorrência do “pico do petróleo” vai ter como resultado mais evidente a redução do crescimento económico. Isso vai pôr em causa o modelo que está subjacente à economia, o qual se baseia exactamente no crescimento contínuo do PIB. É quase certo que a actual crise tem como causa central, precisamente, a carência de crude, associada aos elevados preços que ele tem vindo a atingir, nas bolsas de matérias-primas.

O mundo tem pela frente um extraordinário desafio: insistir no esgotado modelo de crescimento contínuo num mundo finito, ou adaptar-se a viver com menos recursos, e com um crescimento mais reduzido ou mesmo nulo. Serão os economistas, educados a raciocinar apenas em contexto de crescimento contínuo, capazes de resolver este dilema?!

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Este relatório chegou-me, por acaso, às mãos por uma fuga de informação. Estava classificado de “altamente secreto”, e vinha assinado E.T.

“…
Cumprindo as ordens do Conselho Superior da Secção KXW34 da Galáxia, dirigi-me ao terceiro planeta do sistema estelar NX”34 com o fim de vos informar sobre ele, nomeadamente sobre a espécie que ali domina. Utilizei a técnica da materialização metamorfósica para me transmutar num elemento da referida espécie, e durante um longo período vivi desapercebido entre eles. Pude, assim, observar o seu modo de vida, aprender a sua forma de comunicar, e aceder aos seus registos. Tudo com vista a preparar o relatório que agora, já regressado ao nosso Mundo, vos apresento.

Tal como nós prevíamos, o planeta objecto desta análise, pela conjugação da abundância de água, de uma atmosfera adequada, e de uma temperatura amena, reúne perfeitas condições para a existência de vida reprodutiva no sistema carbono-oxigénio. Existe uma grande abundância e diversidade de espécies animais e vegetais, e, considerando a complexidade orgânica de algumas dessas espécies, concluo que as condições favoráveis ao aparecimento das primeiras formas de vida já terão ali ocorrido há muito tempo.

De entre as espécies de seres vivos, existe uma que ganhou um vincado ascendente sobre todas as outras. Chama-se ali espécie humana. Trata-se de um primata, que caminha erecto apoiado sobre os dois membros inferiores. E que tem uma grande destreza dos membros superiores que são dotados, nas extremidades, de cinco ramificações. Esta espécie proliferou de tal forma que as marcas da sua presença são visíveis por toda a parte. E, de entre todas as espécies deste planeta, esta é a única que manifesta comportamento revelador de inteligência.

A sua longa evolução permitiu-lhe articular sons diferenciados, associados a imagens, objectos, ideias e até emoções, facto que lhes que lhes permite comunicar entre eles; criaram também um código gráfico, que lhes permite grafar os sons e registar factos e ocorrências. Isto permitiu-me consultar esses registos, e ficar a conhecer como se processou a evolução desta espécie. Fiquei a saber, por exemplo, que desde há muito os humanos aprenderam a dominar o fogo e a construir ferramentas de todo o tipo.

A sua organização é de uma grande complexidade: dominam perfeitamente a metalurgia, fabricam ferramentas muito diversificadas e sofisticadas. Algumas são capazes de realizar operações inteligentes, outras são para se transportarem, outras para usarem como armas. E fazem isto de uma forma muito organizada, em grandes unidades de fabrico, pelo método da especialização e divisão do trabalho. Conhecem e aplicam técnicas de prolongamento da vida, e são capazes de fazer transplantes de órgãos entre individuos diferentes.

Estão organizados em inúmeros territórios nos quais os seus ocupantes defendem os seus interesses próprios, e, muitas vezes, fazem guerras para defender esses territórios ou para atacar os dos outros. Vivem em grandes aglomerados, uma espécie de colmeias, e têm funções muito diferenciadas. Utilizam as outras espécies em proveito próprio, por vezes criando-as artificialmente e alimentando-se delas. Socialmente, existe um sistema muito vincado de hierarquias, nem sempre baseado no mérito.

A energia que alimenta a vida neste planeta é fornecida pela estrela do seu sistema planetário a que eles chamam Sol. Os humanos aprenderam a utilizar essa energia a seu favor, e até já conseguem capturar a energia dos átomos. No tempo recente, eles têm recorrido a uma forma de energia desde há muito acumulada no planeta, sob a forma de compostos de carbono. Isso permitiu um desenvolvimento e proliferação espectacular da espécie, de tal forma que os registos mostram que, nas últimas seis gerações, o seu número se multiplicou por 8.

Os elementos desta espécie podem comunicar entre si, de forma interactiva e à distância, através de ferramentas muito avançadas, e utilizando códigos. Podem deslocar-se rapidamente de uns lados para outros e de diversas formas, inclusive através do fluído atmosférico. E já visitaram o pequeno satélite que orbita à volta do planeta.

Por tudo o que vi, considero que o estádio de evolução desta espécie está entre os mais avançados da Galáxia. Espantou-me o avanço tecnológico, em alguns aspectos equiparado ao nosso. Poderão estar perto do “grande salto” em frente, da Grande Unificação, tal como aconteceu no nosso Mundo, na Era da Transição. No entanto, encontrei indícios de que existem grandes fragilidades no comportamento desta espécie que podem levar ao seu colapso organizativo, tal como já aconteceu em outros sistemas planetários mas que eles, naturalmente, desconhecem. Refiro algumas dessas fragilidades:

O seu principal recurso energético está a esgotar-se muito rapidamente, mas eles utilizam-no como se fosse inesgotável.
A extrema complexidade organizativa que criaram necessita de uma quantidade cada vez maior de energia para se manter. E eles não têm controlo sobre essa complexidade.
Estão a interagir com o equilíbrio do planeta, interferindo com as outras espécies, modificando ou destruindo eco-sistemas, e estão a alterar a composição da atmosfera. Isto pode tornar as condições muito adversas para o futuro dos humanos.
Não têm consciência do problema do crescimento populacional da sua própria espécie, e aceitam, despreocupadamente, esse facto. As classes do topo da hierarquia cultural e social já conseguem separar o acasalamento da reprodução, e, em parte por isso, estão a reproduzir-se menos, e progressivamente a envelhecer e a perder importância relativa.
…”
O relatório não acaba aqui. O alienígena ainda tece mais algumas considerações sobre cenários de evolução, e termina apresentando um “prognóstico reservado”. Mas o que deixei aqui escrito contém o essencial, e eu, vendo-me assim depositário desta informação (quem sabe se a fuga não terá sido preparada!), sinto-me obrigado a divulgá-la, para que cada um julgue por si próprio. E para que a utilize e a divulgue da forma que melhor entender.

Post escrito por Luis Queiros e publicado no seu blog http://poscarbono.blogspot.com/2010/10/o-relatorio-do-extra-terrestre.html

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