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No site da Transição e Permacultura Portugal encontrámos uma entrevista recente a Miguel Leal, do Movimento de Paredes em Transição, publicada no dia 4 de Novembro de 2010.

A entrevista foi realizada por Luís Rocha, e  é apresentada na integra, sendo que, poderá consultar o original neste site.

 
1. Como começou o movimento de Pareces em Transição?

Quase começou em desastre! Juntei um grupo de amigos cá em casa para assistirmos ao filme “The End of Suburbia” e as coisas não correram, de todo, como esperava. Como com muitas outras pessoas, o filme The End of Suburbia foi, para mim, uma espécie de despertador. Com 38 anos e muita viagem feita, pensava “que sabia quase tudo”. Tinha perfeita consciência da insustentabilidade do nosso modo de vida, do nosso impacto no clima e na biodiversidade, fazia o possível por ser um cidadão consciente e responsável, mas mesmo assim este filme foi um choque. Só aí interiorizei o quão ligados ao petróleo estamos, como a nossa cultura evoluiu tendo por base esta fonte de energia conveniente e barata, o quão vulneráveis estamos face a uma crise no abastecimento.

Acontece que no fim do filme uma pessoa levantou-se e disse: “nada disto é novo. Há gás natural para durar décadas, não me vou deixar consumir com isto e se acontecer, logo decidirei o que fazer”. A iniciativa podia ter morrido ali, mas voltei a reunir o grupo uma ou duas semanas mais tarde e foi assim que o movimento Paredes em Transição nasceu.

 

2. Houve dificuldades iniciais?

Há sempre. Reunir um bom grupo iniciador não é fácil. Conseguir reunir com o poder local é um pesadelo. Convencer as pessoas a participarem numa actividade é desafio… mais sobre dificuldades à frente.

 

3. Segundo Rob Hopkins, um pioneiro da Transição, imaginar uma cidade ecológica do futuro é um dos primeiros passos. Já imaginam uma cidade de Paredes sustentável e resiliente?

Esse exercício tem sido feito através das Estórias de Transição, que tem sido publicadas no jornal local O Verdadeiro Olhar, e com as quais convidamos os paredenses a viajarem ao futuro e visualizarem uma cidade mais humana, mais sustentável, mais solidária e acima de tudo atingível, realizável.

 

4. Quais são os resultados de permacultivar as hortas de Paredes?

O “Terceiro Aniversário da Constelação de Hortas Comunitárias de Paredes” foi uma dessas estórias de Transição que publicámos. A tal constelação de hortas ainda não existe. É um dos nossos objectivos, mas ainda não existe nenhuma, se bem que algumas pessoas tenham ficado muito contentes com a notícia que saiu no jornal. Outro objectivo, mais educativo, é conseguirmos ter uma horta de demonstração dos resultados que a permacultura pode gerar.

A nível pessoal, tenho experimentado as técnicas da permacultura num pequeno espaço, onde vou aprendendo com os sucessos e fracassos.


5. E há as hortas nas alturas, não é?

A Horta nas Alturas é um projecto de transição familiar que decidimos iniciar lá em casa, aproveitando o terraço para produzir vegetais frescos que complementam a nossa dieta. O projecto assentou numa base orçamental reduzidíssima, pois outro objectivo – talvez o principal – era demonstrar que num espaço muito pequeno, com poucos conhecimentos e com muito pouco dinheiro se pode produzir parte dos alimentos que consumimos. Nesse sentido, consegui uma quantidade de caixas de esferovite na peixaria onde me abasteço, que me saíram a custo zero. A maior parte das plantas foram obtidas por meio de trocas e ofertas, quer como mudas, quer a partir de sementes. A componente mais cara deste projecto foi mesmo a terra, que comprei em sacos de 70 litros na cooperativa agrícola.
É incrível como num espaço exíguo conseguimos fazer crescer 25 tipos diferentes de plantas, desde alface a rabanetes e uma variedade de plantas aromáticas. Num dado momento, tínhamos 39 pés de alface prontos a consumir!
Esta horta nas alturas é também um laboratório onde experimentamos, aprendemos e ganhamos experiência, a pensar em projectos de maior envergadura.


6. Que outros projectos têm para lá das hortas?

Actividades temos várias, como as sessões em que ensinamos uns aos outros a fazer pão, iogurte, conservas, compotas e pratos diferentes. Como ainda somos poucos e estamos entre amigos, são actividades fáceis de realizar e com participação garantida. Já os permablitzen, actividades em que nos deslocamos a casa de uma pessoa conhecida munidos de plantas e ferramentas e lhe preparamos uma horta, não gozam do mesmo entusiasmo. Mas têm acontecido.

Agora Projectos… nesta altura do campeonato o Projecto é o movimento Paredes em Transição, que ainda está em fase de afirmação. É uma planta que está a ganhar raízes, e ainda é cedo para que se vejam as flores e os frutos. Vários projectos farão parte do processo de consolidação, sem dúvida, mas nesta fase temos que nos concentrar em fortalecer e expandir o grupo. Objectivos, há muitos, mas ainda há muito caminho a percorrer.

Um projecto que não é nosso mas a que nos associámos é o Projecto PROVE Terras do Sousa, que reúne um grupo de agricultores locais que semanalmente fornece uma lista de clientes com cabazes de produtos horto-frutícolas. É um projecto que já existia, que tem tudo a ver com o movimento de Transição, e a que nos associámos através do Rúben Carminé e da Alda Moreira, que fazem parte das duas iniciativas.


7. Estas iniciativas de Transição trazem um novo sentido à palavra Comunidade, talvez um sentimento renovado de ligação à terra e às pessoas. Que desafios há em formar esse novo espírito de Comunidade em Paredes?

Conseguir formar um espírito de comunidade e um sentimento renovado de ligação à terra numa sociedade no estado em que a nossa se encontra é mesmo um grande desafio. Isto aplica-se a Paredes e a Portugal. Sofremos de uma apatia generalizada. As pessoas parecem fechadas sobre si próprias, indiferentes, diria mesmo embrutecidas. O nível de consciência do problema com o pico do petróleo e da importância de preparar as comunidades para a escalada no preço dos combustíveis é extremamente baixo. De um modo geral, e mesmo depois do que aconteceu em Julho de 2008, as pessoas nem tem ideia da dimensão da dependência que temos do petróleo, nem da dimensão do problema que uma escalada súbita no preço dos combustíveis irá trazer. Não se discute muito este problema na comunicação social, e se não está na comunicação social, não está na mente das pessoas.

Do mesmo modo, o movimento Cidades em Transição, está ainda pouco divulgado em Portugal, e fazer com que o conceito chegue à população em geral é um grande desafio.

Também é preciso deixar claro ao poder local que podemos ser um excelente parceiro e não uma ameaça
É, portanto, muito difícil convencer as pessoas a saírem do seu círculo de conforto e abraçarem um projecto que desconhecem onde as levará. Penso que também poderá existir alguma desconfiança, medo do ridículo, ou de, pelo menos, ser mal interpretado. Penso que isto paralisa a acção de muita gente.


8. Como tem crescido o projecto a nível humano e de sustentabilidade? Há novas metas?

O projecto cresce devagar e está longe de ser auto-sustentável. Ainda não ganhou pernas para andar e as metas continuam a ser essas: ganhar pernas para andar e atingir a auto-sustentabilidade do ponto de vista humano, ou seja, garantir um número crítico de pessoas especialmente empenhadas que evitasse que a saída ou desistência de uma ou duas significasse a morte do projecto.

Também é essencial passar para lá das pessoas interessadas por este tema e chegar à população em geral. Convencer as pessoas a juntarem-se a nós e a ajudar a dinamizar projectos na sua área de interesse.

Por outro lado, a atenção que o movimento Paredes em Transição está a despertar na Internet, e mesmo entre a comunicação social, tem crescido de um modo verdadeiramente surpreendente, o que só confirma o interesse que este tema já está a despertar entre os portugueses.


9. Por último, queres deixar algum conselho para os novatos no Movimento de Transição que queiram formar um novo grupo local de raiz?

Começar um movimento de raiz poderá não ser a melhor maneira, ou pelo menos a mais fácil. Conseguir integrar projectos, grupos ou movimentos já existentes seria muito mais fácil e aconselhável. O namoro poderá demorar o seu tempo, mas valerá a pena.

Aproveitar todas as oportunidades que se proporcionem para dar o vosso projecto a conhecer. É difícil bater às portas todas!

Conhecer bem o modelo de Transição, os problemas a que este deve dar resposta, e projectos de sucesso. Ler a literatura publicada, participar em palestras, workshops, tertúlias. É essencial mostrar que sabemos do que estamos a falar.

Estabelecer pontes e cultivar relações com o poder local, associações e outras entidades.
Cultivar a relação com a comunicação social.

Finalmente, é essencial passar uma boa imagem. É vital que as pessoas envolvidas no movimento de Transição evitem ser rotuladas com estereótipos como “alternativo”, utópico, idealista irrealista.

Cumprimentos de Transição


Original disponivel aqui.

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